O engraxate do interior que hoje chefia a catedral
Reverendo sonhava desde pequeno em pregar; chegou a abandonar seminário e agora atrai fiéis pela internet
O reverendo Aldo Quintão já foi o engraxate Aldo. Até os 16 anos, ele ajudava o pai a lustrar sapatos em Taguatinga, cidade-satélite do Distrito Federal. O dinheiro que ganhava era usado para pagar as despesas da família (o pai, a mãe e seis irmãos). Quintão, porém, não pretendia herdar a profissão do pai. Ele sonhava em ser padre. "Desde criança desejava propagar a palavra de Cristo", diz.
Quintão pedia para o padre da paróquia que o ajudasse a entrar para o seminário. E foi auxiliado: ganhou da Igreja uma passagem de ônibus para a cidade de Itu, no interior de São Paulo, onde iniciou os estudos. O enxoval que levou foi comprado por ele, com o dinheiro que conseguia em bicos que fazia no fim de semana, carregando bolsas de mulheres em feiras. Após se formar no seminário, em 1981, entrou no noviciado e virou o Frei Aldo. Em 1984, com 23 anos, se mudou para a cidade de São Paulo. Na capital paulista, morou na Paróquia Nossa Senhora do Carmo.
Mas Quintão durou pouco na Igreja Católica. Com 24 anos, revoltado com uma série de doutrinas, pediu para deixar a vida de frade. "Não concordava com regras hipócritas como ser contra a camisinha", conta. Saiu da instituição e, desempregado, foi morar em um cortiço na Rua Bela Cintra. Para arcar com as despesas, vendia jornal usado para feirantes e donos de mercadinhos. Nesse período, começou a namorar a atual mulher, a dentista Ana Paula Quintão, com quem tem um filho.
No tempo livre, ele era voluntário na Favela do Real Parque, onde alfabetizava crianças carentes. Na época, foi convidado pelo colégio particular Pio XII para fazer uma palestra sobre o trabalho solidário. Gostaram dele e o chamaram para dar aulas de teologia. Durante seis anos, Quintão conduziu classes sobre religião. Em 1995, porém, estava decepcionado com o rumo que tomou. "Precisava voltar a pregar para me sentir feliz", afirma.
Em busca de uma igreja com a qual se identificasse, visitou cultos evangélicos e protestantes. Mas as ideias liberais não combinaram com essas doutrinas. Foi então que encontrou o anglicanismo e passou a frequentar a Catedral de São Paulo. "A liberdade de pensamento dessa religião me atraiu", diz. Em 1998, ordenou-se padre anglicano.
Hoje, aos 48 anos, Quintão é o reverendo responsável pela paróquia. Seus cultos são transmitidos ao vivo pela internet, o que desperta fiéis em outras regiões do País. Por dia, recebe cerca de 80 e-mails de cristãos do Rio de Janeiro, de Mato Grosso... O talento de Quintão como líder religioso também chamou a atenção da concorrência. "Uma Igreja evangélica me ofereceu um salário dez vezes maior (ele ganha pouco mais de R$ 3 mil por mês) para conduzir cultos para milhares de fiéis", afirma. "Não aceitei porque religião não pode ser só uma forma de lucrar."
Filipe Vilicic, do O ESTADO DE SÃO PAULO
Fonte : www.oestadao.com.br,link original



