Catedral Anglicana de São Paulo

PROTESTANTISMO - A IGREJA ANGLICANA

             Ao lado do altar, num púlpito, o padre dá início à celebracão. Os fiéis oram, fazem leituras da Biblia cantam e ouvem atentamente o sermão. O coral, acompanhado de um violão ou de um órgão, dá ritmo aos hinos. Mas, para o público jovem, a música costuma ser de guitarra e bateria, florais uma missa católica? Não exatamente. Os padres desta Igreja - chamados também de reverendos - podem se casar. Além disso, todos participam da comunhão, mesmo aqueles que não são fiéis habituais. Nos cultos que reúnem parte da comunidade inglesa de São Paulo e têm o pároco Roger Bird à frente, a liturgia é toda em inglês. Em português, o reverendo Aldo Quintão incrementa a homília com a leitura de jornais, o debate de assuntos do momento e até piadas. Para que os fiéis se aprofundem na doutrina, há a escola dominical. Trata-se de uma igreja protestante, então?

                 Sim, mas nem tanto. Na Catedral Anglicana de São Paulo, ou nas demais paróquias que compõem a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, o tom que permeia cultos e a relação com os adeptos da religião é mesmo esse: liberal, independente e - no sentido estrito da palavra - ecumênico ("aberto ao diálogo com outras crenças cuja identidade está ligada à mensagem de Cristo'). Não é à toa que os anglicanos costumam dizer que formam uma "Igreja Católica reformada". Ou seja, eles compartilham muitas características com o Catolicismo - principalmente no que se refere à liturgia e às crenças históricas, comidas no Antigo e Novo Testamento (eles usam a Bíblia católica, com sete livros a mais que a protestante). Mas também adotaram diversos pontos da Reforma Protestante, como a ordenação de mulheres, a ampla participação da comunidade nas decisões da Igreja (que ajuda a eleger bispos), a realização de casamentos entre divorciados e o fato de o celibato do clero ser opcional (a maioria é casada).

Os Pincipior da fé

            Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é o nome que a Igreja da Inglaterra recebeu no Brasil (episcopal porque os dirigenntes são bispos, não há uma autoridade central; anglicana por conta do radical "anglo", que quer dizer inglês). Porém, não diga para um anglicano que sua Igreja nasceu do rompimento do rei inglês Henrique VIII com os católicos romanos, senão você ouvirá um sermão, no bom sentido. Ele irá lhe contar que a Igreja Anglicana é muito mais antiga suas origens remontam ao século 2, data dos registros dos primeiros cristãos na Inglaterra, romanos que ocupavam o território e deixaram a Grã-Bretanha no século 5. Nessa época, a região foi invadida pelos anglo-saxões, que destruíram quase todos os templos. Os cristãos refugiados criaram a Igreja Celta. O papa Gregório I, preocupado, enviou missões católicas para tentar converter os britânicos. Uma delas reuniu as crenças céltica e romana numa só - e formou a base da tradição religiosa britânica.Só muito tempo depois é que entra o rei Henrique VIII. O monarca tinha razões políticas, econômicas e pessoais para romper com a Igreja de Roma, que devem ser entendidas dentro daquele contexto histórico especial.

          Em 1534, após ter o pedido da anulação de seu casamento negado pelo papa Clemente VII, o rei declarou a Inglaterra independente dos católicos. A Igreja do país continuaria a existir como sempre existiu, com os mesmos princípios católicos e a forte influência celta, porém com elementos da Reforma Protestante incorporados e não mais ligada à figura papal.Com as grandes navegações e o início da conquista de novas terras, o Anglicanismo foi levado para as colônias britânicas. "Em todos os lugares, África, Ásia, América, Austrália, organizaram-se igrejas autônomas, com formas próprias de expressão e de interpretação dos ensinamentos originais", diz o teólogo Jaci Maraschin, da Universidade Metodista de São Paulo. "Mais tarde, o Anglicanismo espalhou-se por regiões e culturas que nada tinham a ver com a Inglaterra. Essa diversidade acabou se manifestando também na maneira coomo os anglicanos confessam e vivem a fé cristã." Isso significa que a doutrina é comum, mas cada comunidade tem poder para adaptar suas crenças de acordo com a realidade local- nem todas as paróquias, por exemplo, usam as mesmas orações nas missas. Afinal, um conceito muito presente entre os anglicanos é o da "inclusividade" - ou seja, a abertura para as coisas novas, sem esquecer a tradição. É por causa disso que muitos teólogos afirmam que o Anglicanismo não é exatamente uma religião baseada em dogmas. "Aceitamos o que está contido nas definições do Credo Apostólico e do Credo Niceno", afirma o reverendo Carlos Eduardo Calvani, coordenador do Centro de Estudos Anglicanos, em Londrina, no Paraná, referindo-se a duas orações ecumênicas do Cristianismo, que atestam a existência de um só Deus e de Seu Filho. Como os demais cristãos, os anglicanos também encontram na Bíblia sua fonte inspiradora. "Sempre com a ressalva de que o Livro Sagrado é um documento histórico e não pode ser interpretado literalmente", diz o reverendo.

 Por que o rei rompeu com Roma

                  O surgimento da Igreja Anglicana está associado ao monarca inglês Henrique VIII. As coisas andavam turbulentas na Inglaterra durante o reinado dele, entre 1509 e 1547. O poder político estava nas mãos da nobreza e do clero. Mas a classe burguesa, cada vez mais rica, exercia pressão para participar do governo. "Henrique VIII precisava de diinheiro para não ceder às pressões. E, claro, não podia recorrer à burguesia", diz o historiador Marcos Capellari, da USP. Qual a solução? Confiscar os bens da Igreja Católica. O papa Clemente VII, obviamente, não gostou.

               Além disso, Henrique não estava satisfeito com seu casamento com a espanhola Catarina de Aragão. Sua preocupação era que, sem filhos homens como herdeiros. a Inglaterra pudesse cair em mãos espanholas após sua morte. O rei, então, resolveu pedir ao papa a anulação de seu casamento. Clemente, irritado com o confisco das terras, negou o pedido. O monarca inglês rompeu, então, com Roma e coroou a si mesmo chefe da Igreja da Inglaterra. Separou-se de Catarina, casou-se com outra mulher, abriu caminho para a reforma religiosa e acabou excomungado pelo papa. Com a manobra, o rei livrou-se do perigo do controle espanhol e ainda apropriou-se dos bens da Igreja de uma forma legal. Usou o dinheiro para financiar a Coroa e não se render à pressão dos burgueses. Assim nasceu oficialmente a nova crença. Com o tempo, elementos luteranos e calvinisstas acabaram sendo incorporados às tradições católica e celta da Igreja da Inglaterra, que, espalhada pelo mundo, ganhou o nome de Anglicana.

                 As igrejas anglicanas são desprovidas de imagens de santos. No entanto, eles podem aparecer nos vitrais, como nos da Catedral de São Paulo.

               A crença anglicana ancora-se nas ordens eclesiásticas (a hierarquia é formada por diáconos, presbíteros e bispos, sendo o bispo primaz o mais alto grau) e nos sacramentos do batismo e da eucaristia. "Entretanto, cada fiel sente-se livre para considerar esses 'sinais' da Igreja segundo suas experiências pessoais e comunitárias", diz Jaci Maraschin. A comunhão é um exemplo. "O Anglicanismo não tem nenhum dogma fechado sobre o mistério eucarístico", afirma o reverendo Cakani. "Contentamo-nos em vivenciar a experiência desse mistério crendo na presença de Cristo naquele momento. Desse modo, os anglicanos têm liberdade para interpretá-lo como transubstanciação (pão e vinho transformam-se em corpo e sangue), outros, como presença espiritual." (...)

 Claudia de Castro Lima - Revista das Religiões


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